Luiz Carlos Gonçalves - CEFET-MG


E não foi o meio ambiente

Há males que vêm para o bem. O vazamento da prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que seria realizado neste final de semana, rendeu aos estudantes um ótimo simulado e mais tempo para estudar. Uma boa surpresa da prova é a proposta de redação. Não apenas pelo fato de se ter resistido à tentação de se pedirem mais textos sobre desmatamento, efeito estufa e coisas do tipo. Mas pela clareza e objetividade do enunciado. O tema é “Valorização dos idosos”, o que por si já orienta o candidato para que proponha ações que promovam essa valorização. E isso é tudo, já que os textos de estímulo apenas redundam em reforçar o que é fato: é preciso respeitar os mais idosos, claro.

Não é meio ambiente mas... É como se fosse. O risco que se corre nesse tipo de texto politicamente correto é o de apenas se repisarem clichês, ficar andando em círculos e não se chegar a lugar algum. Por isso, o ideal é, antes de começar a escrever de fato, fazer uma lista de ações que vão além do velho “é preciso conscientizar”. Tentei fazer o texto, como vocês podem ler a seguir. Minha estratégia foi... Ah, é melhor que vocês tentem perceber isso, o que é um bom exercício. Não pus título, uma vez que isso não foi solicitado:

 

O desrespeito aos idosos é reflexo dos valores defendidos por uma sociedade que busca freneticamente o novo: o último modelo, o lançamento, o top de linha... A mesma filosofia consumista e utilitária que nos compele a trocar de celular a cada novo lançamento, também nos ensina que aquilo que é velho é descartável. A luta contra essa ideologia não é fácil. Mas toda vitória começa com uma boa estratégia. E a mais sensata nesse caso parece ser traçar uma ação baseada em três frentes: mídia, escola e família.

É preciso combater a idolatria ao “modo de vida jovem” promovida pela mídia. Nas novelas de TV, por exemplo, é cada vez mais difícil distinguir a vovó da netinha. O idoso é quase sempre representado por atores “conservados”, não raro, a vigorosos golpes de bisturi e picadas de botox. Antigos clichês disseminados pela mídia têm de ser refutados a todo custo. Associar o conceito de vida saudável apenas a corpos sarados e a formas de lazer tipicamente adolescentes é um erro. É preciso um amplo trabalho de conscientização de que não é certo vender a ideia de que idoso saudável é aquele “moderninho” que surfa, faz malhação e fala gírias. A presença de idosos “reais” na mídia, inclusive com seus conflitos, suas rugas e doenças típicas é um passo gigantesco para mudar a percepção acerca da terceira idade.

A escola também pode e deve colaborar. Apenas o uso de termos politicamente corretos, como a substituição de "velhice" por “melhor idade” não resolve, só mascara o problema. A escola brasileira precisa dedicar mais espaço para reverenciar a experiência dos idosos. Promover o contato entre os estudantes e os mais velhos é uma forma de se fazer isso. Mas para isso é preciso rever os conteúdos programáticos e até o material didático, que quase sempre reforça estereótipos como o da relação direta entre felicidade e juventude. O discurso de valorização do idoso cai por terra em um ambiente que acha natural associar tecnologia, agilidade e modernidade à figura do jovem. Bobagem. A mais moderna invenção é, claro, fruto da experiência acumulada de várias gerações.

Mas é na família que o resgate do respeito ao idoso tem de fincar fortemente suas raízes. É preciso que os pais demonstrem aos filhos que os mais velhos são membros ativos do clã e não alguém encostado na casa do filho ou da nora. A simples ideia de que alguém possa não ser mais produtivo porque não atua no mercado de trabalho é preconceituosa. As crianças devem ser estimuladas a ouvir os mais velhos. Se o poder público incentiva a leitura de livros, por que não estimular as pessoas a dedicarem um tempinho para ouvir as histórias dos “vovôs” e “vovós”. Isso não é leitura?

Não se muda do dia para a noite a mentalidade de uma sociedade que assimilou a estranha ideia de que só se é feliz quando se é “jovem”. Durante décadas gerações aceitaram como verdadeira a máxima de que o Brasil é o país do futuro, expressão que parece desmerecer a força das mais velhos. Mas seja pelo aumento dessa parcela da população, seja por meio de campanhas de conscientização, a sociedade começa a perceber que o futuro se faz no presente com a audácia dos mais novos e a experiência dos mais vividos.



Escrito por Luiz Carlos Gonçalves às 23h24
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